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13/09/21

Nenhuma oração

 

julho'21




nenhuma oração 
é tão poderosa
quanto uma paisagem 
ardendo nos olhos

Bénédicte Houart in Vida: Variações II







03/12/20

A luz do mundo antes de o mundo existir

 


novembro'18



Obcecam-me certos filmes dos anos 70, a época imediatamente anterior ao meu nascimento. Sei exactamente o que me agrada nesses filmes: a fotografia limpa, vívida, incontaminada. Assisto a estes filmes como se pudesse apreender-lhes a luz impossível, saturada, sobrenatural, com uma vibração indecisa de aguarela, obsidiante às vezes como pintura flamenga. É, parece-me, a luz do mundo quando o mundo ainda me oferecia todas as possibilidades, incluindo a de não nascer. A luz do mundo antes de o mundo existir. 
É um regresso claro ao ventre materno, ao escuro aconchegante de onde assisto à minha vida, onde encontro rostos e paisagens, mas sem risco, sem a inconveniência do toque, das relações que degeneram, sem ambiguidades que não sejam líricas e metafísicas.
É uma linha adjacente, um desvio vizinho à carne, uma imaginação extrema da carne enquanto a carne não nasce, não chegue talvez a nascer.
A busca incessante por certo tipo de imagens, pelas que correspondem ao meu prazer, é reacionária, uma rejeição da vida e do momento presente, um retrocesso coberto de mistificações. Uma cobardia, portanto.

Andreia C. Faria in Clavicórdio



11/11/20

Passeio Micológico

 














novembro 2018


   


   Há dois anos fui a um passeio micológico. Sei o dia exacto - 10 de novembro - tinha combinado com o F., (que me falou disto) que no dia seguinte iríamos a um retiro intensivo e meio secreto de ioga, a acontecer no dia 11/11 porque haveria a abertura de um portal cósmico. Aconteceu que no dia seguinte o portal não se abriu e choveu copiosamente todo o dia, em pleno verão de S. Martinho.












10/09/20

todas as pessoas sozinhas





Isabel | novembro 2018





Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera
mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.
A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido
por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome
e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,
é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.
Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho
e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção
de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.
A porta da rua é um lugar onde só se sai,
a nossa família é uma fotografia pendurada na parede
e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.
Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos
que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez,
quando ainda éramos todos uns dos outros.
Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene
daqueles que vestem camisas com emoção e significado
enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas
embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão
a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama
e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém
vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.



Luís Filipe Cristóvão 








 

03/03/20

The uses of sorrow



outubro 2018





(In my sleep I dreamed this poem)
Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Mary Oliver

10/02/20

autumn certainties




outubro 2018



the leaves
are going
to change.

the leaves 
are going to
spiral to the ground.

the leaves
are going to
return better 
than ever
before

& darling,
so are
you.

so are
you.


Amanda Lovelace in The princess saves herself in this one



02/01/20

Imortais por conta própria



outubro 2018



Sou instante.
É assim que escrevo, com a alma enfiada nos dedos
ou os dedos enfiados nos olhos.
miraculosamente sentada, respirando,
sendo a faca cortada ao meio
sendo a coluna um pouco torta perto de
uma janela quase sempre aberta
como se daí viesse tudo.
Talvez a cabeça enfiada neste corpo seja
um grito que vem de outra boca,
ou de asfaltos, ou de peixes voadores.
Talvez este desencontro inscrito em mapas venha
de pássaros desajustados bicando planetas.

Eu devia ser a água vertida em bebedouros imundos,
tornando-os úteis
devia ser a noite de sexo incendiada, em que o fôlego
fosse altar
devia ser o espaço onde me coubesse eu-só
devia ser trocada por três côdeas
ou por um livro do Cesariny
ou por um pranto

Qualquer coisa que me levasse daqui.

Porque eu descalço-me antes de caminhar sobre mares.
Com estes dois pezinhos aprendizes, assim me
vou até ao fundo
e no meio das convulsões e dos impulsos que
me calçam, deverei existir

Que a minha verdade me seja entregue por quem
me entrar ao infinito:
ninguém

Não duvido de que ficarei sozinha
e há tanta beleza nisto que tremo toda
enfiando um dedo na eternidade

Podemos ser abandonados por todos
mas seremos imortais por conta própria.


Cláudia R. Sampaio in Ver no Escuro




12/12/19

Borboleta



outubro 2018




Se eu largar
Eu sinto a sua falta
Se eu agarro ela perde a cor
Ela não é dos meus dedos
É dos meus medos
E faço-me passar por uma flor




30/11/19

Esta bola sem começo nem fim




Dornes | outubro 2018


   O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspensa nas nuvens ou escondida nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu, ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, se um dedo grosso se aproxima da roda balanceira, se vai roçar, mesmo de leve, a mola de cabelo, ansiosa como um coração. Um relógio é sólido dentro da sua caixa polida, inoxidável, à prova de choques até ao limite do que lhe for suportável, à prova de água para quem tiver o finíssimo gosto de tomar banho com ele, garantido por uns tantos anos, que poderiam ser muitos se não viessem as modas rir-se do que comprámos ontem, são maneiras de manter a fábrica o seu fluxo de mecanismos e o seu afluxo de dividendos. Mas, se lhe tiram a casca, se o vento, o sol e a humidade começam a girar e a bater por dentro dele, entre os rubis e as engrenagens, qualquer um de vós pode apostar, e ter a certeza de ganhar, que acabaram os dias venturosos. Visto de Monte Lavre, o mundo é um relógio aberto, está com as tripas ao sol, à espera de que chegue a sua hora.

José Saramago in Levantado do Chão



27/11/19

i miss you




Anita e Margarida | setembro 2018



   Tardes de verão infinitas cheias de riso e conversa boa depois dos corpos banhados e tostadinhos ao sol (e os petiscos na esplanada e o entusiasmo embriagado e as festas improváveis e os heterónimos nocturnos e muita música e selfies fantasmagóricas e muita parvoíce) e perder completamente a noção do tempo, i miss you.



14/11/19

O lado de cá da pele



setembro 2018




   O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra.



Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens 

12/11/19

Pequenos caminhos



setembro 2018



   Ir pelas autoestradas significa passar e não ver nada. É coisa de patetas que querem ir depressa de um ponto ao outro. Nós não estamos a fazer geometria, estamos a viajar. Procura pequenos caminhos que mostrem bem tudo o que há para ver.

Eric-Emmanuel Schmitt in O Senhor Ibrahim e as flores do Alcorão


30/10/19

Paisagem




setembro 2018




   O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sagrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.
   Não faltam cores a esta paisagem. Porém, não só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte. E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.

José Saramago in Levantado do Chão   

17/10/19

filhos de mil homens






setembro 2018



   
   (...) todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens

16/10/19

árvores no peito



setembro 2018


   Pensava que a pele deveria ser mais terra, e sonhava com fazer nascer árvores no peito e flores pelos braços e ter rios a correr por sob as pernas e entornar nas coxas giestas fartas e um milharal inteiro.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens

04/10/19

(vir à tona)



 setembro 2018



  
   ser o que se pode é a felicidade. pensou nisto a isaura. não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. a felicidade é a aceitação do que se é e se pode.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens