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03/03/20

The uses of sorrow



outubro 2018





(In my sleep I dreamed this poem)
Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Mary Oliver

08/01/19

O menino que carregava água na peneira












julho 2018




Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
o menino fazia prodígos.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

Manoel de Barros

20/06/18

Distância

















Outubro 2017




   A minha avó conta que antigamente, lá na aldeia, as pessoas diziam que não se devia beber água fria depois de comer para não atrapalhar a distância. E, claro está, ninguém queria atrapalhar a distância. 

  


12/06/18

milagre da multiplicação



   Disse à tia T. que a laranja que comi ao almoço, em casa dela, me soube muito bem. Ela respondeu que  percebeu na altura, pela forma como comi: segurei a laranja e levei-a à boca com as duas mãos e fui dando pequenas trincas. Quando era pequenina segurava assim o chocolate - mesmo que fosse só um quadradinho - porque depois em vez de um pedaço ficava com dez dedos achocolatados para lamber, bem devagarinho.
  Agarro como minhas as memórias que os outros têm da minha infância e comovo-me sempre que percebo que a miúda que fui não desapareceu, é que gosto muito dela, mesmo que ás vezes seja tão mázinha com a sua versão adulta.