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17/03/21

Com paixão e hipocondria

 

Confortamo-nos com histórias laterais,

evitamos o toque, há risco de contágio;

por mais que preservemos a franqueza

passou o estágio já da frontal alegria:

estamos bem, obrigada, embora aquém

de antes - entretanto admitimos não

saber, e enquanto resta isto indefinido,

mesmo com luvas, pinças de parafina, 

não sondamos mais, sob pena de crescer

um quisto nesse incisivo sítio onde

achámos sem tato que menos doía


Margarida Vale de Gato in Mulher ao Mar e Grinalda




27/02/21

Um dia

 



fevereiro'21


 - Olhe, Tuda, o que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento.

Clarice Lispector in Todos os Contos ("Gertrudes pede um conselho")



03/12/20

A luz do mundo antes de o mundo existir

 


novembro'18



Obcecam-me certos filmes dos anos 70, a época imediatamente anterior ao meu nascimento. Sei exactamente o que me agrada nesses filmes: a fotografia limpa, vívida, incontaminada. Assisto a estes filmes como se pudesse apreender-lhes a luz impossível, saturada, sobrenatural, com uma vibração indecisa de aguarela, obsidiante às vezes como pintura flamenga. É, parece-me, a luz do mundo quando o mundo ainda me oferecia todas as possibilidades, incluindo a de não nascer. A luz do mundo antes de o mundo existir. 
É um regresso claro ao ventre materno, ao escuro aconchegante de onde assisto à minha vida, onde encontro rostos e paisagens, mas sem risco, sem a inconveniência do toque, das relações que degeneram, sem ambiguidades que não sejam líricas e metafísicas.
É uma linha adjacente, um desvio vizinho à carne, uma imaginação extrema da carne enquanto a carne não nasce, não chegue talvez a nascer.
A busca incessante por certo tipo de imagens, pelas que correspondem ao meu prazer, é reacionária, uma rejeição da vida e do momento presente, um retrocesso coberto de mistificações. Uma cobardia, portanto.

Andreia C. Faria in Clavicórdio



17/11/20

Como velhos conhecidos

 





setembro 2020




A meio da noite, sem que me lembrasse do que estava a sonhar, acordei e senti uma angústia inexplicável. Uma culpa por toda a minha existência, pelo meu carácter, por todos os acasos que formam um carácter. Era uma condenação avivada pela luz dos candeeiros da rua que, pela janela aberta, vinha morrer aos pés da cama.
Como qualquer pessoa acusada de um crime que não concebe qual seja, gostaria de saber explicar essa angústia. Durou apenas um momento, mas creio ter sido uma experiência de medo puro, químico, abstracto. Algo como um acidente, uma nova cor sombria que, irrigando um canto do meu cérebro, me fizesse regredir a um estado primordial.
Não é raro, a meio da noite, se não consigo adormecer, que todos os medos venham conferenciar comigo. São medos que desde há uns anos se instalaram e, como velhos conhecidos que nos ensonam após o jantar, inibem-me de expulsá-los. Mas nessa noite não era nenhum deles.
Levantei-me para beber água. Caminhei pela casa estranhamente iluminada e senti uma pancada seca na nuca seguida de uma descarga, uma expurgação de todos os líquidos do corpo deixando-me cega, seca, rasa, pronta a não viver. Uma consciência exterior impunha-me esse medo, uma vaga culpa por ser, por ser quem sou, por existir e por um dia ir deixar de existir, como se também o lucro da morte me pudesse ser imputado.
E eu, perscrutando o sono fresco para perceber de onde vinha aquilo, voltei para a cama e adormeci.    


 Andreia C. Faria in Clavicórdio


 






14/11/20

Tem qualquer coisa

 

agosto 2020


  Tem qualquer coisa de arenoso e de amargo e de salino a pele que beijamos pela primeira vez. Qualquer coisa de moreno e turvo, um sarro que corresponde talvez à nossa culpa. Porque o primeiro toque significa uma cedência, uma desmoralização, o desmantelar do enxame de injunções paternas acerca do amor e do sexo, do medo e do desprezo infiltrados entre homens e mulheres, propagados de pais para filha, de modo que a primeira vez que tocamos um corpo desejado abatemos com grandes e assustados golpes os pequenos, secos, insinuantes insectos que toda a vida nos sopraram ao ouvido.

   Tem qualquer coisa de selva e de sujo essa pele pela primeira vez provada, terra em nome da qual deixamos ruir os nossos preconceitos, pela qual acedemos a fazer uma viagem incerta, uma guerra sobrenatural, pela posse da qual, em suma, aceitamos ficar órfãos. Abandonamo-nos tanto mais ao sebo desse excesso, ao prazer lento do pudor eviscerado, quanto difere do mel familiar, tecido boca a boca, límpido. Insípido de tão doce, já não nos consola.


Andreia C. Faria in Clavicórdio

01/05/20

Notícias escrevinhadas na beira de estrada

   Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada — a noite se guarda toda para o infinito silêncio. Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento. ”I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”. Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro. Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam — suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.

Matilde Campilho in Jóquei


10/02/20

autumn certainties




outubro 2018



the leaves
are going
to change.

the leaves 
are going to
spiral to the ground.

the leaves
are going to
return better 
than ever
before

& darling,
so are
you.

so are
you.


Amanda Lovelace in The princess saves herself in this one



09/02/20

para que continues a respirar-me








janeiro 2020




(...)

Porque eu fico-me entre um dia e
outro, na intermitência de uma
descoberta que me salve os pulmões
e os coloque ao teu colo
mansinhos, presente meu para que
continues a respirar-me.

Aqui está o dia de hoje a decompor-se
com cheiro a gestos mortos de uma
imbecilidade terna, 
confusos,
gafanhotos aflitos 
de pernas para o ar.

Cláudia R. Sampaio in Ver no Escuro

02/01/20

Imortais por conta própria



outubro 2018



Sou instante.
É assim que escrevo, com a alma enfiada nos dedos
ou os dedos enfiados nos olhos.
miraculosamente sentada, respirando,
sendo a faca cortada ao meio
sendo a coluna um pouco torta perto de
uma janela quase sempre aberta
como se daí viesse tudo.
Talvez a cabeça enfiada neste corpo seja
um grito que vem de outra boca,
ou de asfaltos, ou de peixes voadores.
Talvez este desencontro inscrito em mapas venha
de pássaros desajustados bicando planetas.

Eu devia ser a água vertida em bebedouros imundos,
tornando-os úteis
devia ser a noite de sexo incendiada, em que o fôlego
fosse altar
devia ser o espaço onde me coubesse eu-só
devia ser trocada por três côdeas
ou por um livro do Cesariny
ou por um pranto

Qualquer coisa que me levasse daqui.

Porque eu descalço-me antes de caminhar sobre mares.
Com estes dois pezinhos aprendizes, assim me
vou até ao fundo
e no meio das convulsões e dos impulsos que
me calçam, deverei existir

Que a minha verdade me seja entregue por quem
me entrar ao infinito:
ninguém

Não duvido de que ficarei sozinha
e há tanta beleza nisto que tremo toda
enfiando um dedo na eternidade

Podemos ser abandonados por todos
mas seremos imortais por conta própria.


Cláudia R. Sampaio in Ver no Escuro




13/12/19

também este peso


Depois de jantar
saio
e passeio o meu coração
acenando cabeça cúmplice
aos vizinhos
que vivem também este peso
de passear os seus bichos à trela

André Tecedeiro in Deitar a Trazer

30/11/19

Esta bola sem começo nem fim




Dornes | outubro 2018


   O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspensa nas nuvens ou escondida nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu, ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, se um dedo grosso se aproxima da roda balanceira, se vai roçar, mesmo de leve, a mola de cabelo, ansiosa como um coração. Um relógio é sólido dentro da sua caixa polida, inoxidável, à prova de choques até ao limite do que lhe for suportável, à prova de água para quem tiver o finíssimo gosto de tomar banho com ele, garantido por uns tantos anos, que poderiam ser muitos se não viessem as modas rir-se do que comprámos ontem, são maneiras de manter a fábrica o seu fluxo de mecanismos e o seu afluxo de dividendos. Mas, se lhe tiram a casca, se o vento, o sol e a humidade começam a girar e a bater por dentro dele, entre os rubis e as engrenagens, qualquer um de vós pode apostar, e ter a certeza de ganhar, que acabaram os dias venturosos. Visto de Monte Lavre, o mundo é um relógio aberto, está com as tripas ao sol, à espera de que chegue a sua hora.

José Saramago in Levantado do Chão



14/11/19

O lado de cá da pele



setembro 2018




   O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra.



Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens 

12/11/19

Pequenos caminhos



setembro 2018



   Ir pelas autoestradas significa passar e não ver nada. É coisa de patetas que querem ir depressa de um ponto ao outro. Nós não estamos a fazer geometria, estamos a viajar. Procura pequenos caminhos que mostrem bem tudo o que há para ver.

Eric-Emmanuel Schmitt in O Senhor Ibrahim e as flores do Alcorão


30/10/19

Paisagem




setembro 2018




   O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas no ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares, que é cor de barro ou sangue sagrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou o seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos.
   Não faltam cores a esta paisagem. Porém, não só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte. E não faltam ao mundo cheiros, nem sequer a esta terra, parte que dele é e servida de paisagem.

José Saramago in Levantado do Chão   

17/10/19

filhos de mil homens






setembro 2018



   
   (...) todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens

16/10/19

árvores no peito



setembro 2018


   Pensava que a pele deveria ser mais terra, e sonhava com fazer nascer árvores no peito e flores pelos braços e ter rios a correr por sob as pernas e entornar nas coxas giestas fartas e um milharal inteiro.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens

04/10/19

(vir à tona)



 setembro 2018



  
   ser o que se pode é a felicidade. pensou nisto a isaura. não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. a felicidade é a aceitação do que se é e se pode.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens


30/09/19

Maldoso e muito paciente



Anabela | setembro 2018




   Em setembro, o diabo passava a sujar as amoras. Era o que dizia o povo de um modo mais indelicado. O diabo, maldoso e muito paciente, passava, baixava as calças escuras e malcheirosas, e sujava as amoras que, se comidas, davam a volta à barriga dos incautos e os sentavam.

Valter Hugo Mãe in O filho de mil homens

19/09/19

A constatação




A constatação de que não recebemos o olhar dos outros da mesma forma que eles o emitem.


Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica


14/07/19

Como num adorável devaneio









Nazaré | agosto 2018



  Embora fosse tão profundamente dúplice, eu não era de modo algum um hipócrita; ambos os lados de mim eram moralmente sinceros; eu não era mais eu quando estava de rastos, agrilhoado e mergulhado na vergonha, do que quando trabalhava, à luz do dia, na ampliação do conhecimento ou no alívio das penas e dos sofrimentos. E sucedeu que a direcção dos meus estudos científicos, que conduziam por inteiro ao místico e ao transcendental, reagiu e lançou uma forte luz sobre essa consciência da guerra perene entre os meus membros. A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência, o moral e o intelectual, fui-me assim aproximando cada vez mais dessa verdade, por cuja descoberta parcial eu fora condenado a um tão terrível naufrágio: a de que o homem não é na verdade um, mas dois. Digo dois, porque o estado do meu próprio conhecimento não vai além desse ponto. Outros se seguirão, outros me ultrapassarão nesta mesma via; e atrevo-me a adivinhar que o homem será finalmente conhecido como um mero agregado de habitantes múltiplos, incongruentes e independentes. Pela minha parte, dada a natureza da minha vida, avancei infalivelmente numa única direcção. Foi no lado moral, e na minha própria pessoa, que aprendi a reconhecer a profunda e primitiva dualidade do homem; vi que, das duas naturezas que se debatiam no campo da minha consciência, ainda que com razão se dissesse que eu era qualquer uma delas, isso era apenas porque eu era radicalmente ambas; e desde cedo, mesmo antes de o curso das minhas descobertas cientificas haver começado a sugerir a mais escassa possibilidade de um tal milagre, eu aprendera a insistir com prazer, como num adorável devaneio, na ideia da separação desses dois elementos. Se cada um deles, dizia eu a mim próprio, pudesse ser alojado em identidades separadas, a vida poderia ser aliviada de tudo o que era insuportável; o injusto poderia seguir o seu caminho, liberto das aspirações e do remorso do seu gémeo mais acertado; e o justo poderia prosseguir de modo resoluto e seguro no seu recto caminho, praticando as boas acções em que achava o seu prazer, não sendo já exposto à desgraça e à penitência pelas mãos desse mal alheio. Era uma maldição para a humanidade que esses feixes incongruentes estivessem assim ligados entre si - que no agonizante útero da consciência esses gémeos polares estivessem em eterno conflito. 

Robert Louis Stevenson in O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr.Hyde