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13/12/22

Love at First Sight

They’re both convinced
that a sudden passion joined them.
Such certainty is beautiful,
but uncertainty is more beautiful still.

Since they’d never met before, they’re sure
that there’d been nothing between them.
But what’s the word from the streets, staircases, hallways—
perhaps they’ve passed by each other a million times?

I want to ask them
if they don’t remember—
a moment face to face
in some revolving door?
perhaps a “sorry” muttered in a crowd?
a curt “wrong number” caught in the receiver?—
but I know the answer.
No, they don’t remember.

They’d be amazed to hear
that Chance has been toying with them
now for years.

Not quite ready yet
to become their Destiny,
it pushed them close, drove them apart,
it barred their path,
stifling a laugh,
and then leaped aside.

There were signs and signals,
even if they couldn’t read them yet.
Perhaps three years ago
or just last Tuesday
a certain leaf fluttered
from one shoulder to another?
Something was dropped and then picked up.
Who knows, maybe the ball that vanished
into childhood’s thicket?

There were doorknobs and doorbells
where one touch had covered another
beforehand.
Suitcases checked and standing side by side.
One night, perhaps, the same dream,
grown hazy by morning.

Every beginning
is only a sequel, after all,
and the book of events
is always open halfway through.

                   Wislawa Szymborska






10/10/21

tudo


Tudo o que vês
te escapará
até que entendas
esse
privilégio. 

Vasco Gato



13/09/21

Nenhuma oração

 

julho'21




nenhuma oração 
é tão poderosa
quanto uma paisagem 
ardendo nos olhos

Bénédicte Houart in Vida: Variações II







08/09/21

Idade Vermelha

 

Tanto tempo para aprender que chegas tarde

ao grande amor. Que nunca terás vivido

uma idade de ouro. As rosas de Ronsard

nunca serão perfume nos teus olhos,

e o Outono não desfolhará 

lentas pétalas nos braços de ninguém.

Cobriste com o esquecimento todos os espelhos

como faziam nas casas dos defuntos.

Não regressam as mulheres com as quais,

por um instante efémero de ternura,

trocavas anos de solidão.

Porque a vida no Outono é ardente,

nas horas de angústia não poderás

amar nem a mulher que já perdeste.


Joan Margarit in Misteriosamente Feliz


17/03/21

Com paixão e hipocondria

 

Confortamo-nos com histórias laterais,

evitamos o toque, há risco de contágio;

por mais que preservemos a franqueza

passou o estágio já da frontal alegria:

estamos bem, obrigada, embora aquém

de antes - entretanto admitimos não

saber, e enquanto resta isto indefinido,

mesmo com luvas, pinças de parafina, 

não sondamos mais, sob pena de crescer

um quisto nesse incisivo sítio onde

achámos sem tato que menos doía


Margarida Vale de Gato in Mulher ao Mar e Grinalda




15/11/20

I trap you




 
I called it Love
I should have called it
Trap

I trap you! I should have said tenderly
At the end of a long day
While we kept each other
Desperately stagnant

I trap you so much!

Yes, I want you to be happy. But don't threaten my happiness
Can't you see I'm walking this threadbare tightrope?
Made out of dental floss stitched
together with strands of tobacco and dog hair
And it stretches between two precious fantasies – my fantasy of me
And my fantasy of you –
And beneath, in raging red chopped razor toothed states of fury
Are all my insecurities
And all the little lies I like to tell myself
And every other reason that I can't see the truth

'I trap you so much!'
I should have whispered in your ear as we fell asleep
Bodies unbound
Sheets soaked
Hearts hammering

If I see it clear will it stay clear?
Will it be clear when you're here?

I don't want fear I don't want greed
I want freedom I want to be freed
I want you to be freed

I want to nourish
I don't want to feed
Like some ravenous mouth
With no guts only greed
Endless appetite
Need
Need
Need

You can't free me
I free me
I breathe
If I am in pieces, is it easier to see?

I think I am whole now
I think I am more whole

But I still check my phone seventeen times a minute
To see if you called and I missed it

Trap

Love is a self-made thing

Love is a self-made
Trap


Kate Tempest - I Trap You


10/09/20

todas as pessoas sozinhas





Isabel | novembro 2018





Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera
mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.
A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido
por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome
e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,
é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.
Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho
e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção
de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.
A porta da rua é um lugar onde só se sai,
a nossa família é uma fotografia pendurada na parede
e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.
Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos
que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez,
quando ainda éramos todos uns dos outros.
Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene
daqueles que vestem camisas com emoção e significado
enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas
embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão
a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama
e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém
vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.



Luís Filipe Cristóvão 








 

01/05/20

Notícias escrevinhadas na beira de estrada

   Não sou de choro fácil a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico. Ou quando acho uma carta que fale sobre a descoberta de um novo modelo para a estrutura do ácido desoxirribonucleico, uma carta que termine com “muito amor, papai”. Francis Crick achou o desenho do ADN e escreveu a seu filho só para dizer que “nossa estrutura é muito bonita”. Estrutura, foi o que ele falou. Antes de despedir-se ainda disse: ” Quando você chegar em casa vou-te mostrar o modelo”. Isso não esqueça os dois pacotes de leite, já agora passe a comprar pão, guarde o resto do dinheiro para seus caramelos, e quando você chegar eu te mostro o mecanismo copiador básico a partir do qual a vida vem da vida. Não sou de choro fácil mas um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos me comove. Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir, e olha que eu moro bem no meio da montanha. De vez em quando vejo passar os aviões, mas isso nunca acontece de madrugada — a noite se guarda toda para o infinito silêncio. Algumas vezes, durante o apuramento das estrelas, penso nos santos que protegem os pilotos. Amelia Earhart disse que não casaria a não ser que fosse assinada uma tabela de condições e essas condições implicavam a possível fuga a qualquer momento. ”I cannot gurantee to endure at all times the confinements of even an attractive cage”. Vai passarinho. Soube de uma canção cujo refrão dizia I would die for you, fiquei pensando que mais de metade das canções do mundo dizem isso mas eu nunca entendi isso. Negócio de amor e morte, credo. Lá na escola eles ensinavam que amor são sete vidas multiplicadas, então acho que amor é o contrário do fim. Sei lá, o mundo está mudando tanto. Não sou de choro fácil a não ser quando penso em determinados milagres que ainda não aconteceram. Meu time ganhou por três a dois. O maior banco norte-americano errou, e errou em muitos milhões. Ninguém chegou a falar do aniversário do Superman, e isso também conta como erro. Faltam seis dias para a Primavera, está tendo uma contagem comunitária na aldeia mais próxima daqui. Acho que está chegando a hora do sossego, e que muita alegria vai pintar por aí. Acho que uma palavra é muito mais bonita do que uma carabina, mas não sei se vem ao caso. Nenhuma palavra quer ferir outras palavras: nem desoxirribonucleico, nem montanha, nem canção. Todos esses conceitos têm os seus sinónimos simplificados, veja só, ácido desoxirribonucleico e ADN são exatamente a mesma coisa, e o resto das palavras você acha. É tudo uma questão de amor e prisma, por favor não abra os canhões. Quando Amelia Earhart morreu continuava casada com Putnam — suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.

Matilde Campilho in Jóquei


03/03/20

The uses of sorrow



outubro 2018





(In my sleep I dreamed this poem)
Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Mary Oliver

09/02/20

para que continues a respirar-me








janeiro 2020




(...)

Porque eu fico-me entre um dia e
outro, na intermitência de uma
descoberta que me salve os pulmões
e os coloque ao teu colo
mansinhos, presente meu para que
continues a respirar-me.

Aqui está o dia de hoje a decompor-se
com cheiro a gestos mortos de uma
imbecilidade terna, 
confusos,
gafanhotos aflitos 
de pernas para o ar.

Cláudia R. Sampaio in Ver no Escuro

02/01/20

Imortais por conta própria



outubro 2018



Sou instante.
É assim que escrevo, com a alma enfiada nos dedos
ou os dedos enfiados nos olhos.
miraculosamente sentada, respirando,
sendo a faca cortada ao meio
sendo a coluna um pouco torta perto de
uma janela quase sempre aberta
como se daí viesse tudo.
Talvez a cabeça enfiada neste corpo seja
um grito que vem de outra boca,
ou de asfaltos, ou de peixes voadores.
Talvez este desencontro inscrito em mapas venha
de pássaros desajustados bicando planetas.

Eu devia ser a água vertida em bebedouros imundos,
tornando-os úteis
devia ser a noite de sexo incendiada, em que o fôlego
fosse altar
devia ser o espaço onde me coubesse eu-só
devia ser trocada por três côdeas
ou por um livro do Cesariny
ou por um pranto

Qualquer coisa que me levasse daqui.

Porque eu descalço-me antes de caminhar sobre mares.
Com estes dois pezinhos aprendizes, assim me
vou até ao fundo
e no meio das convulsões e dos impulsos que
me calçam, deverei existir

Que a minha verdade me seja entregue por quem
me entrar ao infinito:
ninguém

Não duvido de que ficarei sozinha
e há tanta beleza nisto que tremo toda
enfiando um dedo na eternidade

Podemos ser abandonados por todos
mas seremos imortais por conta própria.


Cláudia R. Sampaio in Ver no Escuro




13/12/19

também este peso


Depois de jantar
saio
e passeio o meu coração
acenando cabeça cúmplice
aos vizinhos
que vivem também este peso
de passear os seus bichos à trela

André Tecedeiro in Deitar a Trazer

03/10/19

Acontece



Acabei por não ser
a pessoa 
que esperava ser,
temos mesmo 
muita pena.

Ron Padgett in Poemas Escolhidos


13/08/19

Tira-me



agosto 2018



Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que deva merecer a pena.
E, sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.

Amalia Bautista in Coração Desabitado

05/07/19

Dai-me



Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen



11/06/19

Com unhas e dentes



Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Luís Filipe Parrado in Entre a carne e o osso


10/05/19

Existe sempre o mar





agosto 2018




Existe sempre o 
Mar
Sepultando
Pássaros 
Renovando soluços 
Rompendo gestos.

Hilda Hilst em Baladas

23/04/19

(no centro da festa)



Às vezes parece
que estamos no centro da festa.
Todavia
no centro da festa não há ninguém.
No centro da festa está o vazio.

Mas no centro do vazio há outra festa.


Roberto Juarroz in A Árvore Derrubada Pelos Frutos



16/04/19

Há ir e voltar






Coimbra/Zêzere | julho 2018



   

É tão dificil guardar um rio 
quando ele corre dentro de nós

Jorge Sousa Braga