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11/11/20

Passeio Micológico

 














novembro 2018


   


   Há dois anos fui a um passeio micológico. Sei o dia exacto - 10 de novembro - tinha combinado com o F., (que me falou disto) que no dia seguinte iríamos a um retiro intensivo e meio secreto de ioga, a acontecer no dia 11/11 porque haveria a abertura de um portal cósmico. Aconteceu que no dia seguinte o portal não se abriu e choveu copiosamente todo o dia, em pleno verão de S. Martinho.












30/11/19

Esta bola sem começo nem fim




Dornes | outubro 2018


   O mundo, com todo este seu peso, esta bola sem começo nem fim, coberta de mares e de terras, toda esfaqueada de rios, ribeiras e regatos, a escorrer a aguazinha clara que vai e volta e é sempre a mesma, suspensa nas nuvens ou escondida nas nascentes por baixo das grandes lajes subterrâneas, o mundo que parece uma brutidão aos tombos no céu, ou silencioso pião como um dia o hão-de ver os astronautas e já podemos ir antecipando, o mundo é, visto de Monte Lavre, uma coisa delicada, um relogiozito que só pode aguentar um tanto de corda e nem uma volta mais, e se põe a tremer, a palpitar, se um dedo grosso se aproxima da roda balanceira, se vai roçar, mesmo de leve, a mola de cabelo, ansiosa como um coração. Um relógio é sólido dentro da sua caixa polida, inoxidável, à prova de choques até ao limite do que lhe for suportável, à prova de água para quem tiver o finíssimo gosto de tomar banho com ele, garantido por uns tantos anos, que poderiam ser muitos se não viessem as modas rir-se do que comprámos ontem, são maneiras de manter a fábrica o seu fluxo de mecanismos e o seu afluxo de dividendos. Mas, se lhe tiram a casca, se o vento, o sol e a humidade começam a girar e a bater por dentro dele, entre os rubis e as engrenagens, qualquer um de vós pode apostar, e ter a certeza de ganhar, que acabaram os dias venturosos. Visto de Monte Lavre, o mundo é um relógio aberto, está com as tripas ao sol, à espera de que chegue a sua hora.

José Saramago in Levantado do Chão



12/11/19

Pequenos caminhos



setembro 2018



   Ir pelas autoestradas significa passar e não ver nada. É coisa de patetas que querem ir depressa de um ponto ao outro. Nós não estamos a fazer geometria, estamos a viajar. Procura pequenos caminhos que mostrem bem tudo o que há para ver.

Eric-Emmanuel Schmitt in O Senhor Ibrahim e as flores do Alcorão


02/08/19

pequenas vitórias


Nazaré | agosto



   Aproximei-me timidamente e disse-lhe que achei bonito vê-lo ali, concentrado a desenhar a igreja à nossa frente. Era inglês, ficou meio atrapalhado e sem saber o que responder. Perguntei-lhe se podia fotografá-lo e ele aceitou. Não quis ser inconveniente por isso não me atrevi a disparar mais do que uma vez nem a fazer mais conversa mas fui-me embora a sentir que já tinha ganho o dia.


14/07/19

Como num adorável devaneio









Nazaré | agosto 2018



  Embora fosse tão profundamente dúplice, eu não era de modo algum um hipócrita; ambos os lados de mim eram moralmente sinceros; eu não era mais eu quando estava de rastos, agrilhoado e mergulhado na vergonha, do que quando trabalhava, à luz do dia, na ampliação do conhecimento ou no alívio das penas e dos sofrimentos. E sucedeu que a direcção dos meus estudos científicos, que conduziam por inteiro ao místico e ao transcendental, reagiu e lançou uma forte luz sobre essa consciência da guerra perene entre os meus membros. A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência, o moral e o intelectual, fui-me assim aproximando cada vez mais dessa verdade, por cuja descoberta parcial eu fora condenado a um tão terrível naufrágio: a de que o homem não é na verdade um, mas dois. Digo dois, porque o estado do meu próprio conhecimento não vai além desse ponto. Outros se seguirão, outros me ultrapassarão nesta mesma via; e atrevo-me a adivinhar que o homem será finalmente conhecido como um mero agregado de habitantes múltiplos, incongruentes e independentes. Pela minha parte, dada a natureza da minha vida, avancei infalivelmente numa única direcção. Foi no lado moral, e na minha própria pessoa, que aprendi a reconhecer a profunda e primitiva dualidade do homem; vi que, das duas naturezas que se debatiam no campo da minha consciência, ainda que com razão se dissesse que eu era qualquer uma delas, isso era apenas porque eu era radicalmente ambas; e desde cedo, mesmo antes de o curso das minhas descobertas cientificas haver começado a sugerir a mais escassa possibilidade de um tal milagre, eu aprendera a insistir com prazer, como num adorável devaneio, na ideia da separação desses dois elementos. Se cada um deles, dizia eu a mim próprio, pudesse ser alojado em identidades separadas, a vida poderia ser aliviada de tudo o que era insuportável; o injusto poderia seguir o seu caminho, liberto das aspirações e do remorso do seu gémeo mais acertado; e o justo poderia prosseguir de modo resoluto e seguro no seu recto caminho, praticando as boas acções em que achava o seu prazer, não sendo já exposto à desgraça e à penitência pelas mãos desse mal alheio. Era uma maldição para a humanidade que esses feixes incongruentes estivessem assim ligados entre si - que no agonizante útero da consciência esses gémeos polares estivessem em eterno conflito. 

Robert Louis Stevenson in O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr.Hyde


24/06/19

re-existência


 



 Nazaré | agosto 2018



   Lenz lembrou-se até desse conflito básico entre o lápis e a borracha: a borracha que apaga o que o lápis inscreveu no exterior do mundo, atirando de novo uma palavra ou um desenho para o mundo do não explícito, do escondido, do que ainda não existe; e o lápis que depois, pela segunda vez, volta à carga, tentando forçar a existência - melhor: a re-existência- de um conjunto de traços no papel. Este voltar atrás quase mágico; esta existência que deixa de existir sem deixar atrás de si um cadáver ou qualquer resto - a folha totalmente branca, depois da acção da borracha, folha que momentos antes poderia ter suportado a frase mais relevante do mundo ou, por exemplo, o símbolo do Partido, que a todos impressionava; esse retrocesso artificial, técnico e quase monstruoso sempre fascinara Lenz e ali, naquele momento, ele não pôde deixar de associar esse avançar e recuar ao bom do louco Rafa. Eis alguém - pensou Lenz - que tem o lápis numa das mãos e a borracha noutra, e que age, depois, simultâneamente com as duas mãos.

Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica



16/06/19

Everything I love is out to sea














Nazaré | agosto 2018




I have only two emotions

Careful fear and dead devotion
I can't get the balance right
Throw my marbles in the fight
I see all the ones I wept for
All the things I had it in for
I won't cry until I hear
'Cause I was not supposed to be here
Everything I love is on the table
Everything I love is out to sea

26/04/19

Lua Vermelha








julho 2018


  
 Metemo-nos no barquinho de madeira do F., bem apetrechados de comida, bebida e poesia.  No meio do rio enquanto anoitecia, procurámos a lua vermelha e quase fomos fintados pelo eclipse mas assim que a vimos, pequenina, entre montes, latimos como selvagens. Afinal, não é todos os dias que se assiste em lugar privilegiado a algo tão mágico.