15/08/19

Al Berto










- Tens cara de poeta.
- Como assim?
- Tens uns olhos demasiado tristes. Todos os homens com olhos demasiado tristes são poetas. Mas tu nunca choras, pois não? O mundo só é real quando o homem chora. É preciso ter cuidado com a tristeza. Ela fecunda a própria alma. Expande-se como a própria vida. Torna-se o próprio nome.




Al Berto, Vicente Alves do Ó (2017)

13/08/19

Tira-me



agosto 2018



Tira-me uma dessas fotos que tiras,
embacia a objectiva, desfoca
um pouco e mede mal a luz. Agora
que termina o dia não é difícil
eu sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me veja
pense que deva merecer a pena.
E, sobretudo, que o que impressione
nessa foto não seja eu, que estou
ali, mas os teus olhos que a tiraram.

Amalia Bautista in Coração Desabitado

10/08/19

Receita infalível para uma fotografia bonita:


agosto 2018




- mãe (pode substituir-se por outra pessoa por quem se nutra muita estima);
- luz bonita do entardecer;
- gato curioso aleatório (opcional).


03/08/19

Milk & Honey





Still all you want is milk,

More than you can drink,
All you want is honey, you can't take the sting
You live for overkill, but you're ungrateful still.
All you want is honey, well honey I tried,
You just want more, you just want more.
You just want more,
And now it's all gone.



Billie Marten - Milk & Honey


02/08/19

pequenas vitórias


Nazaré | agosto



   Aproximei-me timidamente e disse-lhe que achei bonito vê-lo ali, concentrado a desenhar a igreja à nossa frente. Era inglês, ficou meio atrapalhado e sem saber o que responder. Perguntei-lhe se podia fotografá-lo e ele aceitou. Não quis ser inconveniente por isso não me atrevi a disparar mais do que uma vez nem a fazer mais conversa mas fui-me embora a sentir que já tinha ganho o dia.


16/07/19

Ma Mère


Imagem relacionada

Imagem relacionada

Emma de Caunes and Louis Garrel in Ma mère (2004)





   I would have preferred doing otherwise. Or living otherwise. But I let myself get overcome by things. Things foreign to me. They settled in. Little by little. They destroyed my hope. They began to rule. You can understand that when I was young this wasn't the life I dreamed of. I didn't dream of this life because I wasn't this person. I was full of joy and energy. You didn't know me, Pierre. As soon as you were born, my youth fell apart. I have the impression that my life today doesn't correspond to my true nature. I have the impression I haven't changed. Still full of joy and energy. But unable to prove it to others. Alone in my joy and energy.


Ma Mère,  Christophe Honoré (2004)


14/07/19

Como num adorável devaneio









Nazaré | agosto 2018



  Embora fosse tão profundamente dúplice, eu não era de modo algum um hipócrita; ambos os lados de mim eram moralmente sinceros; eu não era mais eu quando estava de rastos, agrilhoado e mergulhado na vergonha, do que quando trabalhava, à luz do dia, na ampliação do conhecimento ou no alívio das penas e dos sofrimentos. E sucedeu que a direcção dos meus estudos científicos, que conduziam por inteiro ao místico e ao transcendental, reagiu e lançou uma forte luz sobre essa consciência da guerra perene entre os meus membros. A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência, o moral e o intelectual, fui-me assim aproximando cada vez mais dessa verdade, por cuja descoberta parcial eu fora condenado a um tão terrível naufrágio: a de que o homem não é na verdade um, mas dois. Digo dois, porque o estado do meu próprio conhecimento não vai além desse ponto. Outros se seguirão, outros me ultrapassarão nesta mesma via; e atrevo-me a adivinhar que o homem será finalmente conhecido como um mero agregado de habitantes múltiplos, incongruentes e independentes. Pela minha parte, dada a natureza da minha vida, avancei infalivelmente numa única direcção. Foi no lado moral, e na minha própria pessoa, que aprendi a reconhecer a profunda e primitiva dualidade do homem; vi que, das duas naturezas que se debatiam no campo da minha consciência, ainda que com razão se dissesse que eu era qualquer uma delas, isso era apenas porque eu era radicalmente ambas; e desde cedo, mesmo antes de o curso das minhas descobertas cientificas haver começado a sugerir a mais escassa possibilidade de um tal milagre, eu aprendera a insistir com prazer, como num adorável devaneio, na ideia da separação desses dois elementos. Se cada um deles, dizia eu a mim próprio, pudesse ser alojado em identidades separadas, a vida poderia ser aliviada de tudo o que era insuportável; o injusto poderia seguir o seu caminho, liberto das aspirações e do remorso do seu gémeo mais acertado; e o justo poderia prosseguir de modo resoluto e seguro no seu recto caminho, praticando as boas acções em que achava o seu prazer, não sendo já exposto à desgraça e à penitência pelas mãos desse mal alheio. Era uma maldição para a humanidade que esses feixes incongruentes estivessem assim ligados entre si - que no agonizante útero da consciência esses gémeos polares estivessem em eterno conflito. 

Robert Louis Stevenson in O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr.Hyde


05/07/19

Dai-me



Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen



01/07/19

Outside







Looking outside, I'm scared to die
The sky won't hold light, it leaves me blind
How can I find the sun?
Looking outside
Looking outside, oh, what's the use?
The sky won't hold light, it leaves me too
How can I find the sun?
Looking outside

MorMor - Outside

30/06/19

mal-entendidos


   Perguntaste-me se queria tomar café e o que percebi foi gosto de ti e preciso urgentemente que faças parte da minha vida.






24/06/19

re-existência


 



 Nazaré | agosto 2018



   Lenz lembrou-se até desse conflito básico entre o lápis e a borracha: a borracha que apaga o que o lápis inscreveu no exterior do mundo, atirando de novo uma palavra ou um desenho para o mundo do não explícito, do escondido, do que ainda não existe; e o lápis que depois, pela segunda vez, volta à carga, tentando forçar a existência - melhor: a re-existência- de um conjunto de traços no papel. Este voltar atrás quase mágico; esta existência que deixa de existir sem deixar atrás de si um cadáver ou qualquer resto - a folha totalmente branca, depois da acção da borracha, folha que momentos antes poderia ter suportado a frase mais relevante do mundo ou, por exemplo, o símbolo do Partido, que a todos impressionava; esse retrocesso artificial, técnico e quase monstruoso sempre fascinara Lenz e ali, naquele momento, ele não pôde deixar de associar esse avançar e recuar ao bom do louco Rafa. Eis alguém - pensou Lenz - que tem o lápis numa das mãos e a borracha noutra, e que age, depois, simultâneamente com as duas mãos.

Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica



17/06/19

The Inner Life of Martin Frost





Imagem relacionada



- Who are you? What the hell are you doing here?
It doesn't matter who I am.
Yes it matters very much!
No my darling it doesn't.
How can you say that?
It doesn't matter because you love me. Because you want me. So what else matters?

The Inner Life of Martin Frost, Paul Auster (2007)

16/06/19

Everything I love is out to sea














Nazaré | agosto 2018




I have only two emotions

Careful fear and dead devotion
I can't get the balance right
Throw my marbles in the fight
I see all the ones I wept for
All the things I had it in for
I won't cry until I hear
'Cause I was not supposed to be here
Everything I love is on the table
Everything I love is out to sea

11/06/19

Com unhas e dentes



Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.


Luís Filipe Parrado in Entre a carne e o osso