27/02/21

Um dia

 



fevereiro'21


 - Olhe, Tuda, o que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento.

Clarice Lispector in Todos os Contos ("Gertrudes pede um conselho")



13/12/20

Wings of Desire

  

  




When the child was a child, it was the time of these questions. Why am I me, and why not you? Why am I here, and why not there? When did time begin, and where does space end? Isn't life under the sun just a dream? Isn't what I see, hear, and smell just the mirage of a world before the world? Does evil actually exist, and are there people who are really evil? How can it be that I, who am I, wasn't before I was, and that sometime I, the one I am, no longer will be the one I am?


Wings of Desire, Wim Wenders (1987)


03/12/20

A luz do mundo antes de o mundo existir

 


novembro'18



Obcecam-me certos filmes dos anos 70, a época imediatamente anterior ao meu nascimento. Sei exactamente o que me agrada nesses filmes: a fotografia limpa, vívida, incontaminada. Assisto a estes filmes como se pudesse apreender-lhes a luz impossível, saturada, sobrenatural, com uma vibração indecisa de aguarela, obsidiante às vezes como pintura flamenga. É, parece-me, a luz do mundo quando o mundo ainda me oferecia todas as possibilidades, incluindo a de não nascer. A luz do mundo antes de o mundo existir. 
É um regresso claro ao ventre materno, ao escuro aconchegante de onde assisto à minha vida, onde encontro rostos e paisagens, mas sem risco, sem a inconveniência do toque, das relações que degeneram, sem ambiguidades que não sejam líricas e metafísicas.
É uma linha adjacente, um desvio vizinho à carne, uma imaginação extrema da carne enquanto a carne não nasce, não chegue talvez a nascer.
A busca incessante por certo tipo de imagens, pelas que correspondem ao meu prazer, é reacionária, uma rejeição da vida e do momento presente, um retrocesso coberto de mistificações. Uma cobardia, portanto.

Andreia C. Faria in Clavicórdio



17/11/20

Como velhos conhecidos

 





setembro 2020




A meio da noite, sem que me lembrasse do que estava a sonhar, acordei e senti uma angústia inexplicável. Uma culpa por toda a minha existência, pelo meu carácter, por todos os acasos que formam um carácter. Era uma condenação avivada pela luz dos candeeiros da rua que, pela janela aberta, vinha morrer aos pés da cama.
Como qualquer pessoa acusada de um crime que não concebe qual seja, gostaria de saber explicar essa angústia. Durou apenas um momento, mas creio ter sido uma experiência de medo puro, químico, abstracto. Algo como um acidente, uma nova cor sombria que, irrigando um canto do meu cérebro, me fizesse regredir a um estado primordial.
Não é raro, a meio da noite, se não consigo adormecer, que todos os medos venham conferenciar comigo. São medos que desde há uns anos se instalaram e, como velhos conhecidos que nos ensonam após o jantar, inibem-me de expulsá-los. Mas nessa noite não era nenhum deles.
Levantei-me para beber água. Caminhei pela casa estranhamente iluminada e senti uma pancada seca na nuca seguida de uma descarga, uma expurgação de todos os líquidos do corpo deixando-me cega, seca, rasa, pronta a não viver. Uma consciência exterior impunha-me esse medo, uma vaga culpa por ser, por ser quem sou, por existir e por um dia ir deixar de existir, como se também o lucro da morte me pudesse ser imputado.
E eu, perscrutando o sono fresco para perceber de onde vinha aquilo, voltei para a cama e adormeci.    


 Andreia C. Faria in Clavicórdio


 






15/11/20

I trap you




 
I called it Love
I should have called it
Trap

I trap you! I should have said tenderly
At the end of a long day
While we kept each other
Desperately stagnant

I trap you so much!

Yes, I want you to be happy. But don't threaten my happiness
Can't you see I'm walking this threadbare tightrope?
Made out of dental floss stitched
together with strands of tobacco and dog hair
And it stretches between two precious fantasies – my fantasy of me
And my fantasy of you –
And beneath, in raging red chopped razor toothed states of fury
Are all my insecurities
And all the little lies I like to tell myself
And every other reason that I can't see the truth

'I trap you so much!'
I should have whispered in your ear as we fell asleep
Bodies unbound
Sheets soaked
Hearts hammering

If I see it clear will it stay clear?
Will it be clear when you're here?

I don't want fear I don't want greed
I want freedom I want to be freed
I want you to be freed

I want to nourish
I don't want to feed
Like some ravenous mouth
With no guts only greed
Endless appetite
Need
Need
Need

You can't free me
I free me
I breathe
If I am in pieces, is it easier to see?

I think I am whole now
I think I am more whole

But I still check my phone seventeen times a minute
To see if you called and I missed it

Trap

Love is a self-made thing

Love is a self-made
Trap


Kate Tempest - I Trap You


14/11/20

Tem qualquer coisa

 

agosto 2020


  Tem qualquer coisa de arenoso e de amargo e de salino a pele que beijamos pela primeira vez. Qualquer coisa de moreno e turvo, um sarro que corresponde talvez à nossa culpa. Porque o primeiro toque significa uma cedência, uma desmoralização, o desmantelar do enxame de injunções paternas acerca do amor e do sexo, do medo e do desprezo infiltrados entre homens e mulheres, propagados de pais para filha, de modo que a primeira vez que tocamos um corpo desejado abatemos com grandes e assustados golpes os pequenos, secos, insinuantes insectos que toda a vida nos sopraram ao ouvido.

   Tem qualquer coisa de selva e de sujo essa pele pela primeira vez provada, terra em nome da qual deixamos ruir os nossos preconceitos, pela qual acedemos a fazer uma viagem incerta, uma guerra sobrenatural, pela posse da qual, em suma, aceitamos ficar órfãos. Abandonamo-nos tanto mais ao sebo desse excesso, ao prazer lento do pudor eviscerado, quanto difere do mel familiar, tecido boca a boca, límpido. Insípido de tão doce, já não nos consola.


Andreia C. Faria in Clavicórdio